Antes de calcular dose ou preparar medicação, é preciso entender o que a Farmacologia estuda e por que ela existe como ciência separada da Medicina e da Enfermagem.
O que é Farmacologia
Farmacologia é a ciência que estuda os mecanismos de ação dos fármacos ao entrar em contato com o organismo humano. Ela investiga o que uma substância faz no corpo e como o corpo responde a ela — em ambas as direções.
Origem histórica dos medicamentos
O uso de substâncias para curar remonta à Antiguidade. Um dos registros mais antigos é o Papiro de Ebers, encontrado no Egito e datado de cerca de 1550 a.C., contendo a descrição de aproximadamente 700 remédios. Muito antes de existirem hospitais ou faculdades de medicina, o ser humano já buscava, por tentativa, entender como determinadas substâncias afetavam o corpo.
As áreas de estudo da Farmacologia
Toxicologia: a dose faz o veneno
Uma frase atribuída ao médico Paracelso, do século XVI, resume o princípio central da toxicologia: não existe substância boa ou má por natureza — o que determina se ela cura ou prejudica é a dose. Até a água, em excesso, é tóxica. Essa lógica é a raiz de todo o cuidado que a disciplina dedica ao cálculo de doses mais adiante.
Duas perguntas organizam este encontro: o que o corpo faz com o remédio (farmacocinética) e o que o remédio faz com o corpo (farmacodinâmica).
Farmacocinética: absorção, distribuição, metabolismo, excreção
Absorção
Momento em que o fármaco sai do local de administração e entra na corrente sanguínea. A via escolhida determina a velocidade dessa etapa: vias parenterais tendem a absorver mais rápido que a via oral.Distribuição
O fármaco circula pelo corpo através do sangue. Barreiras naturais, como a hematoencefálica e a placentária, protegem cérebro e feto de certas substâncias, dificultando a passagem de alguns fármacos até esses locais.Metabolismo (biotransformação)
Ocorre majoritariamente no fígado, que transforma o fármaco antes de ele agir plenamente ou ser eliminado. Medicamentos absorvidos por via oral ou retal passam pelo chamado efeito de primeira passagem hepática antes de alcançar a circulação geral.Excreção
Via principal: os rins. Vias secundárias incluem pulmões, fezes, suor, saliva, lágrimas e leite materno — por isso o cuidado redobrado com medicação em gestantes e lactantes.Farmacodinâmica: mecanismo de ação
Um receptor é a estrutura celular à qual o fármaco se liga para produzir, ou bloquear, um efeito — como uma fechadura que recebe uma chave.
Agonista
Encaixa no receptor e o ativa, produzindo o efeito esperado.Antagonista
Encaixa no receptor, mas não o ativa — ocupa o espaço e bloqueia a ação de outras substâncias ali.Potência x eficácia
Potência é a quantidade de fármaco necessária para produzir determinado efeito. Eficácia é o potencial máximo de resposta que esse fármaco é capaz de gerar. Um medicamento pode exigir dose pequena (alta potência) e ainda assim ter eficácia limitada, ou o contrário — os dois conceitos não andam sempre juntos.
Tipos de efeito
| Efeito | O que é |
|---|---|
| Terapêutico | Efeito principal esperado, para o qual o medicamento foi prescrito. |
| Colateral | Efeito esperado, mas que não é o objetivo principal do tratamento. |
| Adverso | Efeito indesejado que prejudica ou incomoda o paciente. |
| Reação idiossincrática | Resposta individual fora do padrão esperado, sem explicação lógica aparente. |
Via de administração é o caminho pelo qual o medicamento entra em contato com o organismo para produzir seu efeito. A escolha depende da rapidez de ação desejada, da condição clínica do paciente e das características do próprio fármaco.
Ação local x ação sistêmica
Ação local
O efeito ocorre no próprio local de aplicação.Ação sistêmica
O medicamento precisa alcançar a corrente sanguínea para chegar ao local de ação, em outro ponto do corpo.Vias enterais
| Via | Características |
|---|---|
| Oral | Absorção no trato gastrointestinal. Mais comum e de menor custo; ação mais lenta e sujeita ao efeito de primeira passagem hepática. |
| Sublingual | Absorvida diretamente pela mucosa sob a língua. Ação rápida, pois evita o metabolismo hepático inicial. |
| Retal | Indicada quando a via oral não é possível (vômitos, inconsciência) ou para efeito local. |
Vias parenterais
| Via | Características |
|---|---|
| Intramuscular (IM) | Aplicação no tecido muscular. Absorção mais rápida que a oral; comum em vacinas e antibióticos. |
| Intravenosa (IV) | Aplicação direta na veia. Ação imediata, sem etapa de absorção; exige técnica rigorosa. |
| Subcutânea (SC) | Aplicação no tecido subcutâneo. Absorção lenta e constante — usada para insulina e heparina. |
| Intradérmica (ID) | Aplicação entre as camadas da pele. Absorção muito lenta — usada em testes de sensibilidade e vacinas específicas. |
Vias tópicas
Comparando a rapidez de ação
Da mais rápida para a mais lenta, como referência geral (varia conforme o fármaco): intravenosa → intramuscular → subcutânea → sublingual → inalável → oral → tópica/transdérmica.
Este encontro trata do que protege o paciente antes mesmo do medicamento ser preparado: leitura correta da prescrição, checagem sistemática e biossegurança.
Elementos obrigatórios da prescrição médica
Os 13 certos da administração segura
O conjunto de verificações evoluiu ao longo do tempo — algumas bancas ainda cobram uma versão de 9 certos, mas a literatura de enfermagem mais recente já trabalha com 13:
| Certo | O que verificar |
|---|---|
| Prescrição certa | Completa, legível e assinada. |
| Paciente certo | Nome completo, data de nascimento ou nº de prontuário. |
| Medicamento certo | Nome do medicamento contra o rótulo da embalagem. |
| Validade certa | Do medicamento e, quando aplicável, da prescrição. |
| Forma certa | Apresentação farmacêutica prescrita. |
| Dose certa | Calculada e conferida. |
| Compatibilidade certa | Entre medicamentos e soluções administrados juntos. |
| Orientação certa | Ao paciente, quando aplicável. |
| Via certa | Conferida antes de preparar. |
| Horário certo | Intervalos prescritos respeitados. |
| Tempo de administração certo | Velocidade de infusão/administração. |
| Ação certa | Efeito esperado condizente com a condição do paciente. |
| Registro certo | Documentado logo após a administração. |
Biossegurança
- Higienização das mãos antes e depois do preparo e da administração.
- Paramentação adequada: jaleco, luvas de procedimento e, quando indicado, máscara e óculos.
- Precauções-Padrão valem para todo paciente, independentemente de diagnóstico conhecido.
- Perfurocortantes nunca são reencapados; descarte imediato na caixa apropriada.
Armazenamento e conservação
Temperatura adequada por classe de medicamento, proteção contra luz para os fotossensíveis, controle rigoroso de validade e cuidado redobrado com a cadeia de frio de termolábeis, como insulina e vacinas — a quebra da cadeia de frio pode inutilizar o medicamento sem qualquer sinal visível no frasco.
Calcular dose não é um exercício de matemática abstrata — é a etapa que garante que o que está escrito na prescrição chegue ao paciente na quantidade certa.
Fórmula geral de cálculo de dose
Cálculo de gotejamento
Macrogotas
Microgotas
Referência de equivalência: 1 mL corresponde, em média, a 20 macrogotas ou 60 microgotas, variando conforme o equipo.
Vazão em bomba de infusão
Cálculo por peso corporal
Antes de calcular: acertar a unidade
Boa parte dos erros de cálculo não está na conta em si, mas em comparar unidades diferentes sem converter primeiro. O sistema métrico usado em farmacologia é decimal: cada unidade sobe ou desce de valor multiplicando ou dividindo por 1000.
Regra de três: o raciocínio por trás da fórmula
A fórmula geral de dose nada mais é do que uma regra de três disfarçada. Sempre que a conta parecer confusa, vale voltar ao raciocínio bruto: alinhar o que é conhecido (dose disponível e quantidade disponível) com o que se quer descobrir (dose prescrita e quantidade a calcular), e resolver por proporção direta.
Particularidade: insulina
O cálculo de insulina segue a mesma regra de três, mas com um limite prático que vale memorizar: independentemente do tamanho da seringa disponível (3 mL, 5 mL), o volume final aspirado para uma dose usual de insulina quase sempre fica abaixo de 1 mL. Se o resultado do cálculo passar bastante de 1 mL, é sinal de erro na conta ou na leitura da concentração do frasco (habitualmente 100 UI/mL) — vale conferir antes de aspirar.
Particularidade: pós liofilizados que aumentam de volume
Ao reconstituir um pó, o volume final da solução não é apenas o volume de diluente que se injeta — o próprio pó ocupa espaço. Por isso, alguns medicamentos em pó (a penicilina cristalina é o exemplo clássico) trazem, na bula, o volume final já esperado após a reconstituição, que costuma ser maior que o volume de diluente adicionado. O cálculo de dose deve sempre usar esse volume final informado pela bula, nunca apenas o volume de diluente injetado.
Mudança de forma de apresentação
Às vezes o que está disponível no estoque não é a mesma forma farmacêutica da prescrição — por exemplo, prescrição em comprimido e disponibilidade apenas em xarope. Nesses casos, o primeiro passo é sempre igualar as unidades (converter porcentagem em concentração, gramas em miligramas) antes de aplicar a regra de três; pular essa conversão é a causa mais comum de erro nesse tipo de questão.
Aqui a teoria vira técnica manual. Antes de qualquer preparo, vale distinguir três termos que costumam ser confundidos.
Ampola de vidro x frasco-ampola
| Ampola de vidro | Frasco-ampola | |
|---|---|---|
| Acesso | Quebra-se o gargalo | Punciona-se a borracha com agulha |
| Conteúdo típico | Solução líquida pronta | Líquido ou pó liofilizado (exige reconstituição) |
| Risco principal | Fragmentos de vidro na solução | Contaminação da borracha sem antissepsia prévia |
Agulhas: tamanho e indicação
| Tamanho | Indicação típica |
|---|---|
| 13 x 3 a 13 x 4,5 | Subcutânea (insulina, heparina). |
| 25 x 6 | Intradérmica e subcutânea. |
| 25 x 7 / 30 x 7 | Intramuscular e intravenosa em pacientes magros ou pediátricos. |
| 25 x 8 / 30 x 8 | Aspiração de frasco/ampola; intramuscular em adultos. |
| 40 x 12 | Reconstituição e aspiração de grandes volumes — não usar para administração direta. |
Cores e calibres variam entre fabricantes; confirme sempre no rótulo da caixa em mãos.
Roteiro geral de reconstituição
- Conferir medicamento e diluente (nome, validade, integridade).
- Higienizar as mãos e calçar luvas.
- Antissepsia da tampa e da ampola de diluente com álcool 70%.
- Injetar o diluente lentamente pela parede interna do frasco, evitando espuma.
- Homogeneizar girando o frasco suavemente, sem agitar.
- Calcular e aspirar o volume correspondente à dose prescrita.
Interação medicamentosa ocorre quando o efeito de um medicamento é alterado pela presença de outro medicamento, alimento ou substância.
Interação farmacocinética
Afeta absorção, distribuição, metabolismo ou excreção de um dos medicamentos envolvidos.Interação farmacodinâmica
Afeta o efeito final, por sinergismo (potencializa) ou antagonismo (reduz).Três tipos na prática
| Tipo | Exemplo |
|---|---|
| Medicamento–medicamento | Dois depressores do SNC associados potencializam o risco de depressão respiratória. |
| Medicamento–alimento | Laticínios reduzem a absorção de alguns antibióticos. |
| Medicamento–solução | Incompatibilidade em Y, com risco de precipitação visível no equipo. |
O que é Farmacovigilância
Conjunto de atividades de detecção, avaliação e prevenção de efeitos adversos de medicamentos. O marco histórico que deu origem aos sistemas modernos foi a tragédia da talidomida, nas décadas de 1950–60, quando o uso do medicamento por gestantes causou má-formações graves em milhares de bebês.
RAM (Reação Adversa a Medicamento)
Dano relacionado ao uso do medicamento em dose normal.Evento adverso
Qualquer ocorrência médica desfavorável, nem sempre causada pelo medicamento.No Brasil, a ANVISA mantém o VigiMed como canal oficial de notificação de suspeitas de reação adversa. O papel do técnico de enfermagem é observar, registrar e comunicar qualquer reação inesperada — sem minimizar nem atribuir causa por conta própria.
Antibióticos
Combatem infecções bacterianas, inibindo o crescimento das bactérias ou destruindo-as. Não têm ação sobre vírus.
- Efeitos adversos: reações alérgicas, resistência bacteriana quando mal utilizados, nefrotoxicidade em alguns (Gentamicina, Vancomicina).
- Cuidado central: respeitar rigorosamente os horários prescritos e nunca interromper o tratamento por conta própria.
Antissépticos
Reduzem ou eliminam micro-organismos na pele e mucosas — diferente do antibiótico, agem por fora, não são absorvidos para tratar infecção sistêmica.
- Cuidado central: respeitar o tempo de ação antes do procedimento (o álcool 70% precisa secar naturalmente antes da punção).
Anticonvulsivantes
Previnem ou controlam crises convulsivas, reduzindo a excitabilidade elétrica anormal no cérebro.
Corticoides
Reduzem inflamação e resposta imunológica exagerada.
- Efeitos adversos: hiperglicemia, imunossupressão, retenção de líquido.
- Cuidado central: nunca suspender uso prolongado abruptamente; monitorar glicemia em pacientes diabéticos.
Antineoplásicos
Combatem células cancerígenas, geralmente interferindo na multiplicação celular — também afetam células saudáveis de multiplicação rápida, daí seus efeitos colaterais característicos.
Analgésicos e antitérmicos
Aliviam dor e reduzem febre — muitas vezes o mesmo medicamento cobre as duas funções. Analgésicos opioides exigem monitorar sedação e depressão respiratória.
Cardiotônicos e antiarrítmicos
Cardiotônicos melhoram a força de contração cardíaca; antiarrítmicos corrigem o ritmo. A Digoxina, exemplo clássico de cardiotônico, tem margem terapêutica estreita — checar a frequência cardíaca antes de administrar é obrigatório.
Anti-hipertensivos e vasodilatadores
Atuam na pressão arterial e no calibre dos vasos. Atenção especial à primeira dose de anti-hipertensivos, que pode reduzir a pressão de forma mais intensa que as doses seguintes.
Diuréticos
Aumentam a eliminação de água e sódio pela urina. Muitos causam perda de potássio (hipocalemia) — e potássio baixo aumenta o risco de intoxicação por Digoxina, uma conexão direta entre dois grupos farmacológicos.
Coagulantes e anticoagulantes
Anticoagulantes como Heparina e Varfarina exigem observação constante de sinais de sangramento. A associação de Varfarina com AAS aumenta o risco de hemorragia — o mesmo tipo de interação medicamento-medicamento já visto no Encontro 7.
Broncodilatadores
Abrem a via respiratória. Tremor e taquicardia leve são efeitos esperados, não motivo de alarme.
Insulina
Um dos hormônios com maior risco de erro de dose em ambiente hospitalar. Conferir a escala em UI antes de aspirar é rotina inegociável, não excesso de cuidado.
Nem todo "soro" é igual. A escolha da solução depende do que o paciente precisa repor: água livre, eletrólitos, volume circulante ou energia. Este é um conteúdo complementar, útil para conectar o cálculo de gotejamento a decisões clínicas reais.
Cristaloides isotônicos
Têm osmolaridade próxima à do plasma, por isso se distribuem de forma previsível entre o espaço intravascular e o intersticial, sem deslocar água para dentro ou para fora das células.
| Solução | Uso típico | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Soro Fisiológico 0,9% (NaCl 0,9%) | Reposição volêmica inicial; veículo de diluição. | Grande volume pode causar acidose hiperclorêmica. |
| Ringer Simples | Reposição com sódio, potássio e cálcio. | Sem tampão (sem lactato) — menos usado que o Ringer Lactato. |
| Ringer Lactato | Reposição volêmica em cirurgia, trauma e queimados. | Contém cálcio — não infundir na mesma via de transfusão sanguínea. |
| Soluções balanceadas (acetato/gluconato) | Alternativa ao Ringer Lactato quando há disfunção hepática. | Sem cálcio — compatível com hemocomponentes. |
Soros glicosados
Fornecem água livre e, em concentrações maiores, aporte calórico. A glicose é metabolizada rapidamente, e o que sobra é essencialmente água distribuída por todo o corpo — por isso um soro glicosado, mesmo isotônico no frasco, se comporta como hipotônico depois de infundido.
| Concentração | Característica |
|---|---|
| SG 5% | Fornece água livre e aporte calórico mínimo; não expande volume circulante. |
| SG 10% | Suporte glicêmico maior; exige veia de calibre adequado. |
| SG 25% e SG 50% | Uso concentrado para correção rápida de hipoglicemia grave; alto risco de flebite química se mal administrado — sempre seguido de solução de manutenção. |
Soluções hipotônicas
Têm menos partículas dissolvidas que o plasma, por isso a água se desloca para dentro das células. Úteis para repor água livre, mas contraindicadas em quadros de choque ou hipovolemia, justamente por não expandirem o espaço intravascular.
- NaCl 0,45% (soro ao meio): repõe água com metade do sódio do soro fisiológico.
- NaCl 0,45% + Glicose 5%: combina água livre de manutenção com um aporte calórico mínimo.
Solução hipertônica e água para injeção
NaCl 3% (salina hipertônica)
Usada em hiponatremia sintomática grave e no controle de hipertensão intracraniana. A correção do sódio precisa ser lenta e monitorada — o risco não é a solução em si, é a velocidade da correção.Água para injeção
Serve apenas para diluir ou reconstituir medicamentos. Nunca é infundida diretamente na veia: por ser extremamente hipotônica, provoca hemólise.Eletrólitos concentrados: aditivos, nunca solução de infusão direta
Um grupo de substâncias existe apenas para corrigir um eletrólito específico — sempre diluídas em uma solução de base, nunca infundidas puras.
| Eletrólito | Indicação | Risco se infundido puro/rápido |
|---|---|---|
| Cloreto de Potássio (KCl) | Correção de hipocalemia. | Parada cardíaca — é considerado o aditivo de maior risco da enfermagem. |
| Gluconato/Cloreto de Cálcio | Hipocalcemia; manejo agudo de hipercalemia. | Infusão rápida causa arritmia; o cloreto é mais irritante ao vaso que o gluconato. |
| Sulfato de Magnésio | Hipomagnesemia; pré-eclâmpsia/eclâmpsia. | Excesso causa depressão respiratória e perda de reflexos. |
| Bicarbonato de Sódio 8,4% | Acidose metabólica grave. | Incompatível com soluções que contêm cálcio (forma precipitado). |
| Fosfato de Potássio | Hipofosfatemia. | Carrega potássio junto — soma-se a outras fontes e pode causar hipercalemia. |
Manitol e coloides
Manitol 20%
Diurético osmótico: puxa água dos tecidos para o intravascular. Usado em edema cerebral e hipertensão intraocular. Pode cristalizar em temperatura baixa — inspecionar o frasco e usar equipo com filtro.Coloides (Albumina, HES, Gelatina)
Expandem o volume intravascular retendo água por pressão oncótica. Albumina é hemoderivado, de indicação restrita; HES teve o uso fortemente limitado por risco renal; gelatina tem maior potencial de reação alérgica entre os três.Nutrição parenteral e emulsão lipídica
Solução de aporte nutricional completo — glicose, aminoácidos, lipídeos, eletrólitos e vitaminas — para pacientes que não podem receber nutrição pela via digestiva. Por ter alta osmolaridade, geralmente exige acesso venoso central, via exclusiva (sem medicamentos administrados junto) e velocidade constante por bomba de infusão.
Saber qual solução usar é metade do trabalho. A outra metade é operacional: como instalar, como reconhecer complicação e como deixar registrado para quem assume o plantão seguinte.
Bomba de infusão x equipo gravitacional
| Bomba de infusão | Gravitacional (macro/micro) | |
|---|---|---|
| Precisão | Alta, velocidade programada | Depende de contagem e ajuste manual |
| Estabilidade | Mantém a velocidade | Varia com a posição do braço e a altura do frasco |
| Quando é obrigatória | Eletrólitos concentrados, drogas vasoativas, salina hipertônica, insulina IV, nutrição parenteral e pediatria. | |
Os certos aplicados ao soro
Os mesmos certos vistos na Aula 4 se aplicam, ponto a ponto, à instalação de qualquer soro: paciente certo, solução certa, concentração/dose certa, via certa, velocidade certa, horário certo, compatibilidade certa, registro certo, validade e integridade certas — conferidos sempre antes de conectar o equipo, nunca depois.
Rotulagem da solução instalada
Toda solução pendurada precisa de etiqueta própria com: nome do paciente e leito, solução e volume, aditivos e suas quantidades, velocidade e tempo de infusão, data e hora de instalação, e responsável. Uma bolsa sem identificação é um risco direto na passagem de plantão — quem assiste depois não sabe o que está correndo nem quando trocar.
Complicações da via intravenosa
Infiltração
Escape de solução não vesicante para o tecido ao redor da veia: edema, palidez, pele fria, desconforto.Extravasamento
O mesmo escape, só que com solução vesicante (hipertônicas, cálcio, algumas drogas) — com risco real de necrose tecidual. Exige parar a infusão de imediato e seguir o protocolo específico do agente envolvido.Flebite: graus e conduta
| Grau | Sinais |
|---|---|
| 0 | Sem sinais. |
| 1 | Eritema no sítio, com ou sem dor. |
| 2 | Dor com eritema e/ou edema. |
| 3 | Dor, eritema, endurecimento e cordão venoso palpável. |
| 4 | Igual ao grau 3, com cordão extenso e drenagem purulenta. |
Escala de referência geral; siga a graduação e a conduta do protocolo institucional.
Sobrecarga hídrica: reconhecer cedo
Registro de enfermagem da soroterapia
O que não é registrado não tem controle. Todo registro de soroterapia deve conter: solução, volume e aditivos; velocidade e método (bomba ou gravitacional); sítio e tipo de acesso; horário de início e de término ou troca; qualquer intercorrência e a conduta tomada; aspecto do sítio; e balanço hídrico.