material de apoio · noções de farmacologia

Da bancada ao paciente

Um guia de leitura complementar aos encontros da disciplina: conceitos, vias, cálculo, segurança e os grupos de medicamentos que vocês vão encontrar na prática.

CursoTécnico em Enfermagem
InstituiçãoGrau Técnico — Unidade Maracanaú
TurmaENF03-n-2D
UsoLeitura complementar, não substitui bula ou protocolo
01
Introdução à Farmacologiaconceito, história e mapa da disciplina

Antes de calcular dose ou preparar medicação, é preciso entender o que a Farmacologia estuda e por que ela existe como ciência separada da Medicina e da Enfermagem.

O que é Farmacologia

Farmacologia é a ciência que estuda os mecanismos de ação dos fármacos ao entrar em contato com o organismo humano. Ela investiga o que uma substância faz no corpo e como o corpo responde a ela — em ambas as direções.

Ponto de atenção A manipulação de fármacos exige responsabilidade: a mesma substância que trata pode comprometer o organismo do paciente se mal administrada. É esse peso que justifica todo o rigor técnico da disciplina.

Origem histórica dos medicamentos

O uso de substâncias para curar remonta à Antiguidade. Um dos registros mais antigos é o Papiro de Ebers, encontrado no Egito e datado de cerca de 1550 a.C., contendo a descrição de aproximadamente 700 remédios. Muito antes de existirem hospitais ou faculdades de medicina, o ser humano já buscava, por tentativa, entender como determinadas substâncias afetavam o corpo.

As áreas de estudo da Farmacologia

Farmacologia geralprincípios básicos, comuns a todo fármaco
Farmacologia aplicadauso terapêutico prático
Farmacognosiaorigem natural dos fármacos
Farmacotécnicapreparo e formulação de medicamentos
Farmacodinâmicao que o fármaco faz no corpo
Farmacocinéticao que o corpo faz com o fármaco
Farmacoterapêuticauso do fármaco para tratar doenças
Farmacologia clínicaestudo em pacientes reais
Toxicologiaefeitos nocivos e doses perigosas

Toxicologia: a dose faz o veneno

Uma frase atribuída ao médico Paracelso, do século XVI, resume o princípio central da toxicologia: não existe substância boa ou má por natureza — o que determina se ela cura ou prejudica é a dose. Até a água, em excesso, é tóxica. Essa lógica é a raiz de todo o cuidado que a disciplina dedica ao cálculo de doses mais adiante.

02
Farmacocinética e Farmacodinâmicao caminho do fármaco e o que ele provoca

Duas perguntas organizam este encontro: o que o corpo faz com o remédio (farmacocinética) e o que o remédio faz com o corpo (farmacodinâmica).

Farmacocinética: absorção, distribuição, metabolismo, excreção

Absorção

Momento em que o fármaco sai do local de administração e entra na corrente sanguínea. A via escolhida determina a velocidade dessa etapa: vias parenterais tendem a absorver mais rápido que a via oral.

Distribuição

O fármaco circula pelo corpo através do sangue. Barreiras naturais, como a hematoencefálica e a placentária, protegem cérebro e feto de certas substâncias, dificultando a passagem de alguns fármacos até esses locais.

Metabolismo (biotransformação)

Ocorre majoritariamente no fígado, que transforma o fármaco antes de ele agir plenamente ou ser eliminado. Medicamentos absorvidos por via oral ou retal passam pelo chamado efeito de primeira passagem hepática antes de alcançar a circulação geral.

Excreção

Via principal: os rins. Vias secundárias incluem pulmões, fezes, suor, saliva, lágrimas e leite materno — por isso o cuidado redobrado com medicação em gestantes e lactantes.

Farmacodinâmica: mecanismo de ação

Um receptor é a estrutura celular à qual o fármaco se liga para produzir, ou bloquear, um efeito — como uma fechadura que recebe uma chave.

Agonista

Encaixa no receptor e o ativa, produzindo o efeito esperado.

Antagonista

Encaixa no receptor, mas não o ativa — ocupa o espaço e bloqueia a ação de outras substâncias ali.

Potência x eficácia

Potência é a quantidade de fármaco necessária para produzir determinado efeito. Eficácia é o potencial máximo de resposta que esse fármaco é capaz de gerar. Um medicamento pode exigir dose pequena (alta potência) e ainda assim ter eficácia limitada, ou o contrário — os dois conceitos não andam sempre juntos.

Tipos de efeito

EfeitoO que é
TerapêuticoEfeito principal esperado, para o qual o medicamento foi prescrito.
ColateralEfeito esperado, mas que não é o objetivo principal do tratamento.
AdversoEfeito indesejado que prejudica ou incomoda o paciente.
Reação idiossincráticaResposta individual fora do padrão esperado, sem explicação lógica aparente.
03
Vias de Administraçãoas portas de entrada do medicamento

Via de administração é o caminho pelo qual o medicamento entra em contato com o organismo para produzir seu efeito. A escolha depende da rapidez de ação desejada, da condição clínica do paciente e das características do próprio fármaco.

Ação local x ação sistêmica

Ação local

O efeito ocorre no próprio local de aplicação.

Ação sistêmica

O medicamento precisa alcançar a corrente sanguínea para chegar ao local de ação, em outro ponto do corpo.

Vias enterais

ViaCaracterísticas
OralAbsorção no trato gastrointestinal. Mais comum e de menor custo; ação mais lenta e sujeita ao efeito de primeira passagem hepática.
SublingualAbsorvida diretamente pela mucosa sob a língua. Ação rápida, pois evita o metabolismo hepático inicial.
RetalIndicada quando a via oral não é possível (vômitos, inconsciência) ou para efeito local.

Vias parenterais

ViaCaracterísticas
Intramuscular (IM)Aplicação no tecido muscular. Absorção mais rápida que a oral; comum em vacinas e antibióticos.
Intravenosa (IV)Aplicação direta na veia. Ação imediata, sem etapa de absorção; exige técnica rigorosa.
Subcutânea (SC)Aplicação no tecido subcutâneo. Absorção lenta e constante — usada para insulina e heparina.
Intradérmica (ID)Aplicação entre as camadas da pele. Absorção muito lenta — usada em testes de sensibilidade e vacinas específicas.

Vias tópicas

Epidérmicapomadas e cremes na pele
Transdérmicaadesivo, efeito sistêmico
Inalávelbombinhas, nebulização
Ocularcolírios
Otológicagotas para o ouvido
Intranasalspray nasal

Comparando a rapidez de ação

Da mais rápida para a mais lenta, como referência geral (varia conforme o fármaco): intravenosa → intramuscular → subcutânea → sublingual → inalável → oral → tópica/transdérmica.

04
Prescrição, Certos e Biossegurançaa barreira antes do erro

Este encontro trata do que protege o paciente antes mesmo do medicamento ser preparado: leitura correta da prescrição, checagem sistemática e biossegurança.

Elementos obrigatórios da prescrição médica

Pacientenome completo
Medicamentonome e dose
Viade administração
Frequênciae horários
Assinaturae duração do tratamento
Conduta Prescrição incompleta ou ambígua nunca é administrada por presunção. A confirmação com a equipe é sempre o primeiro passo.

Os 13 certos da administração segura

O conjunto de verificações evoluiu ao longo do tempo — algumas bancas ainda cobram uma versão de 9 certos, mas a literatura de enfermagem mais recente já trabalha com 13:

CertoO que verificar
Prescrição certaCompleta, legível e assinada.
Paciente certoNome completo, data de nascimento ou nº de prontuário.
Medicamento certoNome do medicamento contra o rótulo da embalagem.
Validade certaDo medicamento e, quando aplicável, da prescrição.
Forma certaApresentação farmacêutica prescrita.
Dose certaCalculada e conferida.
Compatibilidade certaEntre medicamentos e soluções administrados juntos.
Orientação certaAo paciente, quando aplicável.
Via certaConferida antes de preparar.
Horário certoIntervalos prescritos respeitados.
Tempo de administração certoVelocidade de infusão/administração.
Ação certaEfeito esperado condizente com a condição do paciente.
Registro certoDocumentado logo após a administração.

Biossegurança

  • Higienização das mãos antes e depois do preparo e da administração.
  • Paramentação adequada: jaleco, luvas de procedimento e, quando indicado, máscara e óculos.
  • Precauções-Padrão valem para todo paciente, independentemente de diagnóstico conhecido.
  • Perfurocortantes nunca são reencapados; descarte imediato na caixa apropriada.

Armazenamento e conservação

Temperatura adequada por classe de medicamento, proteção contra luz para os fotossensíveis, controle rigoroso de validade e cuidado redobrado com a cadeia de frio de termolábeis, como insulina e vacinas — a quebra da cadeia de frio pode inutilizar o medicamento sem qualquer sinal visível no frasco.

05
Cálculo de Doses e Gotejamentotransformar prescrição em número exato

Calcular dose não é um exercício de matemática abstrata — é a etapa que garante que o que está escrito na prescrição chegue ao paciente na quantidade certa.

Fórmula geral de cálculo de dose

Dose a administrar = ( Dose prescrita ÷ Dose disponível ) × Quantidade Ex.: prescritos 750 mg · disponível 500 mg em 2 mL → (750 ÷ 500) × 2 = 3 mL

Cálculo de gotejamento

Macrogotas

gotas/min = (Volume ÷ Tempo em min) × Fator do equipo

Microgotas

microgotas/min = Volume total ÷ Tempo total em horas

Referência de equivalência: 1 mL corresponde, em média, a 20 macrogotas ou 60 microgotas, variando conforme o equipo.

Vazão em bomba de infusão

Vazão (mL/h) = Volume total ÷ Tempo total em horas

Cálculo por peso corporal

Dose total = Dose por kg × Peso do paciente Depois, aplique a fórmula geral de dose para chegar ao volume a administrar.
Reforço Em doses fracionadas ao longo do dia, calcule primeiro a dose diária total e só depois divida pelo número de aplicações — inverter essa ordem é o erro mais comum nesse tipo de cálculo.

Antes de calcular: acertar a unidade

Boa parte dos erros de cálculo não está na conta em si, mas em comparar unidades diferentes sem converter primeiro. O sistema métrico usado em farmacologia é decimal: cada unidade sobe ou desce de valor multiplicando ou dividindo por 1000.

1 g = 1.000 mg  ·  1 mg = 1.000 mcg  ·  1 kg = 1.000 g Se a prescrição vem em mg e o frasco traz a concentração em g (ou vice-versa), converta antes de montar a regra de três — nunca durante.

Regra de três: o raciocínio por trás da fórmula

A fórmula geral de dose nada mais é do que uma regra de três disfarçada. Sempre que a conta parecer confusa, vale voltar ao raciocínio bruto: alinhar o que é conhecido (dose disponível e quantidade disponível) com o que se quer descobrir (dose prescrita e quantidade a calcular), e resolver por proporção direta.

Dose disponível ────── Quantidade disponível Dose prescrita ────── Quantidade a calcular (X) Multiplica-se em cruz e isola-se X. É a mesma lógica usada tanto para comprimido quanto para ampola, insulina ou penicilina — muda o número, não o raciocínio.

Particularidade: insulina

O cálculo de insulina segue a mesma regra de três, mas com um limite prático que vale memorizar: independentemente do tamanho da seringa disponível (3 mL, 5 mL), o volume final aspirado para uma dose usual de insulina quase sempre fica abaixo de 1 mL. Se o resultado do cálculo passar bastante de 1 mL, é sinal de erro na conta ou na leitura da concentração do frasco (habitualmente 100 UI/mL) — vale conferir antes de aspirar.

Particularidade: pós liofilizados que aumentam de volume

Ao reconstituir um pó, o volume final da solução não é apenas o volume de diluente que se injeta — o próprio pó ocupa espaço. Por isso, alguns medicamentos em pó (a penicilina cristalina é o exemplo clássico) trazem, na bula, o volume final já esperado após a reconstituição, que costuma ser maior que o volume de diluente adicionado. O cálculo de dose deve sempre usar esse volume final informado pela bula, nunca apenas o volume de diluente injetado.

Mudança de forma de apresentação

Às vezes o que está disponível no estoque não é a mesma forma farmacêutica da prescrição — por exemplo, prescrição em comprimido e disponibilidade apenas em xarope. Nesses casos, o primeiro passo é sempre igualar as unidades (converter porcentagem em concentração, gramas em miligramas) antes de aplicar a regra de três; pular essa conversão é a causa mais comum de erro nesse tipo de questão.

06
Preparo em Laboratórioreconstituição, diluição e rediluição

Aqui a teoria vira técnica manual. Antes de qualquer preparo, vale distinguir três termos que costumam ser confundidos.

Reconstituiçãotransformar um pó em solução, adicionando o diluente próprio.
Diluiçãoacrescentar mais líquido a uma solução que já existe.
Rediluiçãodiluir novamente uma solução já diluída, partindo sempre da concentração já obtida — nunca da concentração original.

Ampola de vidro x frasco-ampola

Ampola de vidroFrasco-ampola
AcessoQuebra-se o gargaloPunciona-se a borracha com agulha
Conteúdo típicoSolução líquida prontaLíquido ou pó liofilizado (exige reconstituição)
Risco principalFragmentos de vidro na soluçãoContaminação da borracha sem antissepsia prévia
Técnica Ao aspirar de ampola de vidro, usar agulha filtro reduz o risco de aspirar microfragmentos — e essa agulha nunca deve puncionar o paciente; troque por uma de aplicação antes de administrar.

Agulhas: tamanho e indicação

TamanhoIndicação típica
13 x 3 a 13 x 4,5Subcutânea (insulina, heparina).
25 x 6Intradérmica e subcutânea.
25 x 7 / 30 x 7Intramuscular e intravenosa em pacientes magros ou pediátricos.
25 x 8 / 30 x 8Aspiração de frasco/ampola; intramuscular em adultos.
40 x 12Reconstituição e aspiração de grandes volumes — não usar para administração direta.

Cores e calibres variam entre fabricantes; confirme sempre no rótulo da caixa em mãos.

Roteiro geral de reconstituição

  1. Conferir medicamento e diluente (nome, validade, integridade).
  2. Higienizar as mãos e calçar luvas.
  3. Antissepsia da tampa e da ampola de diluente com álcool 70%.
  4. Injetar o diluente lentamente pela parede interna do frasco, evitando espuma.
  5. Homogeneizar girando o frasco suavemente, sem agitar.
  6. Calcular e aspirar o volume correspondente à dose prescrita.
07
Interações e Farmacovigilânciaquando dois medicamentos se encontram

Interação medicamentosa ocorre quando o efeito de um medicamento é alterado pela presença de outro medicamento, alimento ou substância.

Interação farmacocinética

Afeta absorção, distribuição, metabolismo ou excreção de um dos medicamentos envolvidos.

Interação farmacodinâmica

Afeta o efeito final, por sinergismo (potencializa) ou antagonismo (reduz).

Três tipos na prática

TipoExemplo
Medicamento–medicamentoDois depressores do SNC associados potencializam o risco de depressão respiratória.
Medicamento–alimentoLaticínios reduzem a absorção de alguns antibióticos.
Medicamento–soluçãoIncompatibilidade em Y, com risco de precipitação visível no equipo.
Caso de destaque A combinação de Ceftriaxona com soluções contendo Cálcio pode formar precipitado, com risco especialmente grave em recém-nascidos. Nunca administrar simultaneamente pela mesma via.

O que é Farmacovigilância

Conjunto de atividades de detecção, avaliação e prevenção de efeitos adversos de medicamentos. O marco histórico que deu origem aos sistemas modernos foi a tragédia da talidomida, nas décadas de 1950–60, quando o uso do medicamento por gestantes causou má-formações graves em milhares de bebês.

RAM (Reação Adversa a Medicamento)

Dano relacionado ao uso do medicamento em dose normal.

Evento adverso

Qualquer ocorrência médica desfavorável, nem sempre causada pelo medicamento.

No Brasil, a ANVISA mantém o VigiMed como canal oficial de notificação de suspeitas de reação adversa. O papel do técnico de enfermagem é observar, registrar e comunicar qualquer reação inesperada — sem minimizar nem atribuir causa por conta própria.

08
Grupos Farmacológicos Iantibióticos, antissépticos, anticonvulsivantes, corticoides, antineoplásicos

Antibióticos

Combatem infecções bacterianas, inibindo o crescimento das bactérias ou destruindo-as. Não têm ação sobre vírus.

  • Efeitos adversos: reações alérgicas, resistência bacteriana quando mal utilizados, nefrotoxicidade em alguns (Gentamicina, Vancomicina).
  • Cuidado central: respeitar rigorosamente os horários prescritos e nunca interromper o tratamento por conta própria.

Antissépticos

Reduzem ou eliminam micro-organismos na pele e mucosas — diferente do antibiótico, agem por fora, não são absorvidos para tratar infecção sistêmica.

  • Cuidado central: respeitar o tempo de ação antes do procedimento (o álcool 70% precisa secar naturalmente antes da punção).

Anticonvulsivantes

Previnem ou controlam crises convulsivas, reduzindo a excitabilidade elétrica anormal no cérebro.

Atenção Na administração IV de Fenitoína, respeitar a velocidade máxima de infusão prescrita — infusão rápida demais pode causar arritmia e hipotensão.

Corticoides

Reduzem inflamação e resposta imunológica exagerada.

  • Efeitos adversos: hiperglicemia, imunossupressão, retenção de líquido.
  • Cuidado central: nunca suspender uso prolongado abruptamente; monitorar glicemia em pacientes diabéticos.

Antineoplásicos

Combatem células cancerígenas, geralmente interferindo na multiplicação celular — também afetam células saudáveis de multiplicação rápida, daí seus efeitos colaterais característicos.

Manuseio Exige EPI específico, diferente do uso comum, e descarte especial. Nunca manusear sem protocolo e treinamento apropriados: o risco recai também sobre quem manuseia, não só sobre o paciente.
09
Grupos Farmacológicos IIo restante do mapa clínico

Analgésicos e antitérmicos

Aliviam dor e reduzem febre — muitas vezes o mesmo medicamento cobre as duas funções. Analgésicos opioides exigem monitorar sedação e depressão respiratória.

Cardiotônicos e antiarrítmicos

Cardiotônicos melhoram a força de contração cardíaca; antiarrítmicos corrigem o ritmo. A Digoxina, exemplo clássico de cardiotônico, tem margem terapêutica estreita — checar a frequência cardíaca antes de administrar é obrigatório.

Anti-hipertensivos e vasodilatadores

Atuam na pressão arterial e no calibre dos vasos. Atenção especial à primeira dose de anti-hipertensivos, que pode reduzir a pressão de forma mais intensa que as doses seguintes.

Diuréticos

Aumentam a eliminação de água e sódio pela urina. Muitos causam perda de potássio (hipocalemia) — e potássio baixo aumenta o risco de intoxicação por Digoxina, uma conexão direta entre dois grupos farmacológicos.

Coagulantes e anticoagulantes

Anticoagulantes como Heparina e Varfarina exigem observação constante de sinais de sangramento. A associação de Varfarina com AAS aumenta o risco de hemorragia — o mesmo tipo de interação medicamento-medicamento já visto no Encontro 7.

Broncodilatadores

Abrem a via respiratória. Tremor e taquicardia leve são efeitos esperados, não motivo de alarme.

Insulina

Um dos hormônios com maior risco de erro de dose em ambiente hospitalar. Conferir a escala em UI antes de aspirar é rotina inegociável, não excesso de cuidado.

Para fechar o mapa Cada grupo farmacológico carrega, junto do nome, um cuidado de enfermagem específico. Decorar o nome sem o cuidado correspondente é memorizar metade da informação.
10
Soroterapia: Tipos de Soluçãoo que corre dentro do soro e por quê

Nem todo "soro" é igual. A escolha da solução depende do que o paciente precisa repor: água livre, eletrólitos, volume circulante ou energia. Este é um conteúdo complementar, útil para conectar o cálculo de gotejamento a decisões clínicas reais.

Cristaloides isotônicos

Têm osmolaridade próxima à do plasma, por isso se distribuem de forma previsível entre o espaço intravascular e o intersticial, sem deslocar água para dentro ou para fora das células.

SoluçãoUso típicoPonto de atenção
Soro Fisiológico 0,9% (NaCl 0,9%)Reposição volêmica inicial; veículo de diluição.Grande volume pode causar acidose hiperclorêmica.
Ringer SimplesReposição com sódio, potássio e cálcio.Sem tampão (sem lactato) — menos usado que o Ringer Lactato.
Ringer LactatoReposição volêmica em cirurgia, trauma e queimados.Contém cálcio — não infundir na mesma via de transfusão sanguínea.
Soluções balanceadas (acetato/gluconato)Alternativa ao Ringer Lactato quando há disfunção hepática.Sem cálcio — compatível com hemocomponentes.

Soros glicosados

Fornecem água livre e, em concentrações maiores, aporte calórico. A glicose é metabolizada rapidamente, e o que sobra é essencialmente água distribuída por todo o corpo — por isso um soro glicosado, mesmo isotônico no frasco, se comporta como hipotônico depois de infundido.

ConcentraçãoCaracterística
SG 5%Fornece água livre e aporte calórico mínimo; não expande volume circulante.
SG 10%Suporte glicêmico maior; exige veia de calibre adequado.
SG 25% e SG 50%Uso concentrado para correção rápida de hipoglicemia grave; alto risco de flebite química se mal administrado — sempre seguido de solução de manutenção.

Soluções hipotônicas

Têm menos partículas dissolvidas que o plasma, por isso a água se desloca para dentro das células. Úteis para repor água livre, mas contraindicadas em quadros de choque ou hipovolemia, justamente por não expandirem o espaço intravascular.

  • NaCl 0,45% (soro ao meio): repõe água com metade do sódio do soro fisiológico.
  • NaCl 0,45% + Glicose 5%: combina água livre de manutenção com um aporte calórico mínimo.

Solução hipertônica e água para injeção

NaCl 3% (salina hipertônica)

Usada em hiponatremia sintomática grave e no controle de hipertensão intracraniana. A correção do sódio precisa ser lenta e monitorada — o risco não é a solução em si, é a velocidade da correção.

Água para injeção

Serve apenas para diluir ou reconstituir medicamentos. Nunca é infundida diretamente na veia: por ser extremamente hipotônica, provoca hemólise.

Eletrólitos concentrados: aditivos, nunca solução de infusão direta

Um grupo de substâncias existe apenas para corrigir um eletrólito específico — sempre diluídas em uma solução de base, nunca infundidas puras.

EletrólitoIndicaçãoRisco se infundido puro/rápido
Cloreto de Potássio (KCl)Correção de hipocalemia.Parada cardíaca — é considerado o aditivo de maior risco da enfermagem.
Gluconato/Cloreto de CálcioHipocalcemia; manejo agudo de hipercalemia.Infusão rápida causa arritmia; o cloreto é mais irritante ao vaso que o gluconato.
Sulfato de MagnésioHipomagnesemia; pré-eclâmpsia/eclâmpsia.Excesso causa depressão respiratória e perda de reflexos.
Bicarbonato de Sódio 8,4%Acidose metabólica grave.Incompatível com soluções que contêm cálcio (forma precipitado).
Fosfato de PotássioHipofosfatemia.Carrega potássio junto — soma-se a outras fontes e pode causar hipercalemia.

Manitol e coloides

Manitol 20%

Diurético osmótico: puxa água dos tecidos para o intravascular. Usado em edema cerebral e hipertensão intraocular. Pode cristalizar em temperatura baixa — inspecionar o frasco e usar equipo com filtro.

Coloides (Albumina, HES, Gelatina)

Expandem o volume intravascular retendo água por pressão oncótica. Albumina é hemoderivado, de indicação restrita; HES teve o uso fortemente limitado por risco renal; gelatina tem maior potencial de reação alérgica entre os três.

Nutrição parenteral e emulsão lipídica

Solução de aporte nutricional completo — glicose, aminoácidos, lipídeos, eletrólitos e vitaminas — para pacientes que não podem receber nutrição pela via digestiva. Por ter alta osmolaridade, geralmente exige acesso venoso central, via exclusiva (sem medicamentos administrados junto) e velocidade constante por bomba de infusão.

11
Segurança na Soroterapiainstalar, vigiar e registrar sem erro

Saber qual solução usar é metade do trabalho. A outra metade é operacional: como instalar, como reconhecer complicação e como deixar registrado para quem assume o plantão seguinte.

Bomba de infusão x equipo gravitacional

Bomba de infusãoGravitacional (macro/micro)
PrecisãoAlta, velocidade programadaDepende de contagem e ajuste manual
EstabilidadeMantém a velocidadeVaria com a posição do braço e a altura do frasco
Quando é obrigatóriaEletrólitos concentrados, drogas vasoativas, salina hipertônica, insulina IV, nutrição parenteral e pediatria.

Os certos aplicados ao soro

Os mesmos certos vistos na Aula 4 se aplicam, ponto a ponto, à instalação de qualquer soro: paciente certo, solução certa, concentração/dose certa, via certa, velocidade certa, horário certo, compatibilidade certa, registro certo, validade e integridade certas — conferidos sempre antes de conectar o equipo, nunca depois.

Rotulagem da solução instalada

Toda solução pendurada precisa de etiqueta própria com: nome do paciente e leito, solução e volume, aditivos e suas quantidades, velocidade e tempo de infusão, data e hora de instalação, e responsável. Uma bolsa sem identificação é um risco direto na passagem de plantão — quem assiste depois não sabe o que está correndo nem quando trocar.

Complicações da via intravenosa

Infiltração

Escape de solução não vesicante para o tecido ao redor da veia: edema, palidez, pele fria, desconforto.

Extravasamento

O mesmo escape, só que com solução vesicante (hipertônicas, cálcio, algumas drogas) — com risco real de necrose tecidual. Exige parar a infusão de imediato e seguir o protocolo específico do agente envolvido.

Flebite: graus e conduta

GrauSinais
0Sem sinais.
1Eritema no sítio, com ou sem dor.
2Dor com eritema e/ou edema.
3Dor, eritema, endurecimento e cordão venoso palpável.
4Igual ao grau 3, com cordão extenso e drenagem purulenta.

Escala de referência geral; siga a graduação e a conduta do protocolo institucional.

Sobrecarga hídrica: reconhecer cedo

Sinais precoces Dispneia, taquipneia e queda de saturação aparecem antes dos estertores e do edema pulmonar instalado. Pacientes cardiopatas, renais, idosos e crianças exigem vigilância redobrada — perceber a sobrecarga só no edema agudo de pulmão é perceber tarde demais.

Registro de enfermagem da soroterapia

O que não é registrado não tem controle. Todo registro de soroterapia deve conter: solução, volume e aditivos; velocidade e método (bomba ou gravitacional); sítio e tipo de acesso; horário de início e de término ou troca; qualquer intercorrência e a conduta tomada; aspecto do sítio; e balanço hídrico.